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CANTO AZUL

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No único momento em que trata explicitamente do assunto, na interpretação do samba-jazz de Joyce Moreno “Mingus, Miles & Coltrane”, a cantora e compositora norte-rio-grandense Bruna Hetzel parece querer conceituar seu álbum de estreia, bem como sua própria música: “Foi assim que o samba que sempre foi meu/Namorou o jazz e quando percebeu/Displicentemente, foi o samba jazz que nasceu”.

Curiosamente, o termo “namoro” – mais descompromissado e singelo que casamento; mais apaixonado e constante que um flerte ou mesmo uma ficada – foi usado também por Vinicius de Moraes numa de suas muitas e irretocáveis definições de Bossa Nova: “Ela é uma filha moderna do samba tradicional, que teve seu namoro com o jazz”.

“Canto azul”, o álbum de estreia de Bruna Hetzel, tem esse momento digamos explícito na música de Joyce, mas em todas as suas nove faixas ela promove esse namoro da música brasileira com o jazz – é esse o seu estilo. E a sua linhagem.

Não por acaso, numa outra escolha de repertório quase explícita, Bruna pinça do repertório de Leny Andrade uma pequena pérola composta para ela nos anos 80 por Ivan Lins e Vitor Martins, “Cantor da noite”, na qual se celebra esse namoro em seu habitat natural, a noite e a música feita na noite. Mas “dessas noites que a gente sai/Sem dono/Procurando um samba canção no vento”.

Ou, em outro momento mais sutil, traz a inventividade harmônica e rítmica sem limites de Djavan para a linguagem do samba jazz em “Azul” – canção criada, livre como o jazz, mas originalmente num universo mais pop. E, ainda mais clara em sua intenção, Bruna reinventa “Sim”, um choro jazz ultra contemporâneo do Triz, o trio formado pelos músicos e compositores André Mehmari (pianista), Chico Pinheiro (guitarrista) e Sérgio Santos (violonista) – três dos maiores compositores e instrumentistas brasileiros da atualidade - que lançou um solitário e antológico CD em 2012.

Joyce, Leny, Ivan, Djavan, Triz não são apenas nomes, sonoros nomes, meras influências da música de Bruna Hetzel. São uma verdadeira linhagem de músicos brasileiros que sempre flertaram com o jazz e que chega nela, na intensa cena musical do Rio Grande do Norte nesta virada de 2021 para 22. É uma linhagem que modernamente começa na conversão do pianista de jazz Dick Farney em cantor de música brasileira, com o samba canção “Copacabana” em 1946, chega ao auge com a bossa nova e o samba jazz de Leny Andrade nos anos 60, e vai se espraiar por toda a MPB de Joyce, Ivan Lins e Djavan, e aporta confortavelmente na música potiguar contemporânea através de cantoras como Liz Rosa, hoje voando com naturalidade na ponte Natal, Rio, Nova York. E, agora, chega luxuosamente em Bruna Hetzel.

Bruna passou os últimos dez anos se aperfeiçoando musicalmente -estudando música e canto, tornando-se ela própria professora – e criando shows e projetos que apenas comprovam sua filiação, como “Influência do jazz”, em 2012, e “Lady sings the blues: Um Tributo a Billie Holiday”, em 2015.

Para este seu primeiro disco, uniu-se a outras figuras da música potiguar contemporânea, como seu diretor musical e pianista Eduardo Taufic, que ao lado de seu irmão Roberto Taufic (violão e guitarra), Daniel Ribeiro (contrabaixo acústico), Anderson Mello (bateria) e Ramon Gabriel (percussão) formam o quinteto que a acompanha em todas as faixas, quinteto de música brasileira com influência do jazz no sotaque e na liberdade de improviso, que transbordam em todas as faixas.

A cena do Rio Grande do Norte também aparece nas composições. Na linda e complexa balada “Canto azul”, que dá título ao álbum, Bruna apresenta uma composição originalmente sua, letra e música, que se transformou com a harmonização proposta pelo violonista potiguar Sergio Farias, tão definidora que virou parceiro da canção. Todo pensamento musical de Bruna parece estar lá, da construção harmônica, à melodia cheia de desafios para o seu canto preciso, o espaço para o improviso dos músicos, e a letra de sua autoria, comentando a música: “Escuta esta canção/ Meu canto azul pra ti/À beira de um violão”.

O azul do mar que banha sua cidade – e que colore seu “Canto azul”, e a canção de Djavan com esse nome – está também na outra canção autoral de Bruna, que abre o disco. “Canto do mar” é uma canção praieira, claro que influenciada pelo jazz na harmonia complexa e na execução, mas assumindo-se na linhagem brasileira “dos filhos de Dorival” e no culto à Iemanjá – elementos básicos do Brasil e da música brasileira.

Da cena potiguar também vem a regravação do tão fluente samba “Par-ímpar”, da dupla João Salinas e Cleudo Freire. E “Em seu piano”, composta pelo guitarrista do disco Roberto Taufic, canção que faz curioso par com “Violão”, já clássica canção de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro. Ambas tratam dos instrumentos que fazem a base harmônica e rítmica deste disco, do jazz e da música brasileira. “Em seu piano”, aliás, é uma canção em homenagem a Waldemar Ernesto, avô de Bruna e provável origem de sua intensa musicalidade, pianista gaúcho que, depois de tocar no eixo Rio-SP no tempo da bossa nova, radicou-se no Rio Grande Norte e tornou-se notável professor de música de gerações de músicos potiguares, como o próprio Eduardo Taufic.

Celebrar instrumentos através de canções dá bem a dimensão de como Bruna Hetzel vê a música e seu papel como cantora, que vai além de ser a solista, mas ela própria um instrumento preciso, como os de Miles, Mingus e Coltrane, ou Leny, Joyce, Djavan, música brasileira e jazz sempre a namorar.

HUGO SUKMAN

 HUGO SUKMAN

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